Maestra é desligada da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais após críticas a salários
A regente Ligia Amadio foi desligada da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais (OSMG) após quase três anos como diretora musical e regente titular. A decisão, comunicada pela Fundação Clóvis Salgado (FCS), mantenedora da orquestra, ligada ao Governo do Estado de Minas Gerais, ocorre cerca de um mês após a maestra ter criticado publicamente os baixos salários pagos aos músicos do grupo, gerando forte reação do sindicato da categoria.
Em audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), em novembro do ano passado, Amadio classificou a OSMG como “a mais mal paga deste país”. Ela detalhou que músicos iniciantes recebem R$ 1.618,72 mensais, o que equivale a aproximadamente R$ 66 por dia de trabalho. Sua fala foi prontamente aplaudida durante a sessão.
Em reação à notícia, o Sindicato dos Músicos Profissionais de Minas Gerais (Sindmusi-MG) emitiu uma nota expressando “profundo lamento” pela demissão (leia a íntegra da manifestação abaixo). Para a entidade, o fato “pode parecer uma reação injustificável à sua postura em defesa dos músicos”. A nota destaca que os músicos viam na maestra “mais que uma liderança artística, uma aliada nas reivindicações por melhoria nas condições de trabalho e salário”.
O sindicato afirma que tentou uma solução negociada com a direção da FCS, mas que as negociações não prosperaram. Criticou a “contradição” da fundação ao alegar falta de recursos enquanto anuncia uma grande programação para a temporada de 2026, ano em que a OSMG completa 50 anos e a FCS, 55. Para o Sindmusi-MG, a saída de Ligia Amadio “vai impactar negativamente” no nível artístico do grupo, que havia elevado sua qualidade sob sua batuta.
Parlamentares mineiros também se manifestaram sobre o desligamento de Ligia Amadio da OSMG. A deputada federal Duda Salabert, por exemplo, escreveu que a maestra “elevou o nível da Sinfônica de Minas e rompeu um dos espaços mais machistas da música clássica”. “Por lutar por melhores condições de trabalho na música e na cultura em geral, foi demitida às vésperas dos 50 anos da Orquestra Sinfônica de MG”, lamentou.
Ligia Amadio possuía um currículo de projeção nacional e internacional. Assumiu a OSMG em março de 2023 e foi a única mulher a comandar a orquestra em seus 50 anos de existência. Em sua carreira, foi regente titular de orquestras como a Filarmônica de Montevidéu (Uruguai), a Filarmônica de Bogotá (Colômbia) e a Filarmônica de Mendoza (Argentina). No Brasil, atuou na Orquestra Sinfônica Nacional, na Sinfônica de Campinas e na Orquestra Sinfônica da USP (OSUSP).
A reportagem questionou a FCS, presidida por Sérgio Rodrigo Reis, e a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult-MG), liderada desde o ano passado por Bárbara Botega. Até a publicação da reportagem, a entidade e a pasta não se posicionaram.
A maestra também foi procurada por O TEMPO, mas optou por não se manifestar neste momento.
Caso as partes se manifestem, o texto será atualizado.
Leia a íntegra da nota do Sindicado dos Músicos de Minas Gerais sobre a demissão da maestra Ligia Amadio
Após uma temporada de grandes realizações, os músicos da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais foram surpreendidos, ainda durante as férias, pela preocupante notícia da demissão de Ligia Amadio. Essa maestra de reconhecimento internacional vinha realizando um trabalho de alto nível à frente da orquestra desde 2023. Tudo indicava que esse trabalho teria seu ponto alto em 2026, quando a OSMG comemora 50 anos de sua criação.
Há um consenso entre a maioria dos músicos de que o trabalho realizado pela maestra foi fundamental para a elevação da qualidade artística do grupo e que seu desligamento vai impactar negativamente no nível do trabalho. Além disso, os músicos viam nela, mais que uma liderança artística, uma aliada nas reivindicações por melhoria nas condições de trabalho e salário. Isso ficou evidenciado numa recente Audiência Pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais na qual se comemorou os 80 anos do Sindicato, ocasião em que ela foi homenageada. Ligia fez um pronunciamento enfático e respeitoso em defesa das necessárias melhorias para os profissionais da orquestra.
A comissão de representantes dos músicos procurou o Sindicato para uma tentativa de solução negociada junto à direção da Fundação Clóvis Salgado. Pedimos uma reunião e fomos prontamente atendidos. Infelizmente, a boa vontade em nos receber não perdurou perante nossas argumentações. A direção foi contraditória ao alegar falta de recursos em um momento em que anuncia uma grande programação para a temporada. Foi argumentado pelo Sindicato que no ano da comemoração dos 50 anos da OSMG e 55 anos da FCS é de grande importância para a cultura mineira a permanência da liderança que trouxe esse corpo artístico a esse patamar de grande qualidade. Ainda assim, a direção não recuou da decisão pela interrupção desse trabalho.
Lamentamos profundamente pela demissão de Ligia Amadio nesse contexto, que pode parecer uma reação injustificável à sua postura em defesa dos músicos. Esperamos mais habilidade e bom senso dessa diretoria nesse momento tão significativo para essa instituição cultural.

