Saulo Queiroz Braga: o jovem que mudou a história do sindicalismo itabirano e morreu tragicamente
Durante as próximas semanas, a coluna contará essa história, que está dividida em três partes
No final da década de 1980, Itabira vivia sob o signo da velha Cia. Vale do Rio Doce (CVRD). A estatal se apresentava como a “Joia da Coroa”. A mineração e a terra do “Poeta Maior”, Carlos Drummond de Andrade, se confundiam. Difícil definir exatamente onde terminava o perímetro urbano e começavam as minas. Ou vice-versa. Outra dúvida bastante simbólica: quem mais mandava no município? O prefeito ou o “todo-poderoso” superintendente das Minas — o cargo máximo da CVRD em solo itabirano. A opulência do escritório central da mineradora, na Praça do Areão, dirimia tranquilamente esta dúvida. Mesmo porque, o paço municipal se hospedava em precárias e provisórias instalações. A prefeitura mudava de endereços continuamente.
O sindicato dos trabalhadores também mostrava imponência. No nome e estrutura física. O Metabase já nasceu grande, em 4 de março de 1945, na reta final da Segunda Guerra Mundial. A instituição, porém, funcionava como mero garantidor de acordos coletivos, uma espécie de carimbo institucional. O “ACEITE” era a única opção disponível. Naquele tempo, prevalecia o sindicalismo de resultados, um modelo estabelecido no governo Getúlio Vargas. No início da década de 1980, esta característica ainda estava estruturada na relação capital x trabalho da pólis.
Nesta ocasião, o técnico de Mineração Saulo Queiroz Braga apareceu na rude paisagem. O “forasteiro” iniciaria sua carreira profissional na estatal. O novo funcionário tinha 20 anos de idade e acabara de concluir a sua formação na Escola Técnica Vital Brasil de Belo Horizonte, a sua terra natal. Depois de longo período de estágio (nove meses), foi admitido na empresa e passou a ocupar o cargo de supervisor, na seção de Carregamento, na Usina de Concentração do Cauê.
Saulo era atleta. Alto, magro e de lisos cabelos negros semilongos, estilo pega-rapaz. Andava a passos largos, com as pernas ligeiramente arqueadas. Na época, já ostentava faixa preta de karatê. O novato rapidamente se entrosou na comunidade itabirana. Em pouco tempo, passou a ensinar artes marciais na Associação dos Técnicos Industriais da Vale (Ativa) e algumas academias da cidade.
O desportista exibia personalidade forte e espontânea. Muito carismático. Desenvolvia comunicação fácil e cativante. A fina ironia sempre vinha acompanhada de estrondosas gargalhadas. Era o tal gozador nato. Uma agressiva oratória, no entanto, era a sua mais marcante característica. Discursava alto, em bom tom e cadenciadamente. Queiroz tinha posicionamentos políticos consolidados. Assumia, publicamente, profunda e incondicional admiração pelo gaúcho Leonel Brizola. Mas, por outro lado, nutria indisfarçável antipatia pelo recém-fundado Partido dos Trabalhadores (PT). Jamais explicitou claramente os motivos da aversão ao PT.
No início dos anos 1980, o sindicalista José Eustáquio de Assis Ferreira assumiu a presidência do Metabase. O secretário da instituição era João Mário de Brito, o braço direito do presidente. Este grupo inaugurou inédito perfil de sindicalismo. Tratava-se de uma atuação mais pragmática. A estratégia misturava ganhos salariais com conquistas sociais. Clube Campestre, colônias de férias, convênios diversos, livraria e farmácias compunham a nova pauta de reivindicações. Neste panorama, de forma súbita e até inesperada, Saulo Braga decidiu se aventurar no universo sindical.
O Brasil passava por momento complexo na política. O país era governado pelo general João Batista de Oliveira Figueiredo (1979 a 1985), o último chefe do Executivo do regime militar. Em seu discurso de posse, em 15 de março de 1979, o ditador prometeu: “juro fazer do Brasil uma democracia”. Um pouco mais à frente, disparou para os jornalistas: “É para abrir mesmo. E quem quiser que não abra, eu prendo. Arrebento. Não tenha dúvidas”. E, assim, começou a tão esperada abertura política.
O pontapé inicial foi uma anistia “ampla, geral e irrestrita” para os adversários do militarismo (ou subversivos). O cenário, contudo, era de tensão, apreensão e incertezas. A todo instante, o fantasma do retrocesso amedrontava a sociedade brasileira. Ainda assim, Saulo principiou a sua curta trajetória no movimento sindical. A ousadia e atrevimento do irrequieto belo-horizontino cobrariam um elevado custo. Afinal, não se destrói paradigmas sem impactantes sacríficos pessoais.
* Na próxima semana, a coluna trará o segundo capítulo desta história, mostrando como Saulo Queiroz pavimentou os novos caminhos do sindicalismo itabirano.
Sobre o colunista
Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online e Caraça FM.
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