Picada de cobra pode aumentar risco de AVC mesmo após atendimento rápido, aponta estudo
Uma revisão conduzida por pesquisadores da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado indica que uma picada de cobra pode desencadear um acidente vascular cerebral (AVC), inclusive em pacientes que receberam atendimento médico e soro antiofídico poucas horas após o acidente. O estudo analisou 130 casos de AVC associados ao envenenamento por serpentes.
A pesquisa, publicada na revista científica PLoS Neglected Tropical Diseases, identificou que 61,5% dos casos analisados foram de AVC isquêmico, enquanto 38,5% foram hemorrágicos. A taxa de mortalidade chegou a 23,4%, e parte dos sobreviventes apresentou sequelas neurológicas. Os casos ocorreram principalmente na Índia, no Brasil e no Sri Lanka, além de outros 19 países.
Como o veneno pode provocar AVC
Segundo os pesquisadores, diferentes toxinas presentes nos venenos de serpentes podem interferir no sistema circulatório de maneiras distintas. Algumas alteram a coagulação do sangue, reduzem as plaquetas e favorecem sangramentos. Outras provocam inflamação nos vasos sanguíneos e formação de trombos, aumentando a possibilidade de obstrução das artérias.
Com isso, a vítima pode desenvolver tanto AVC isquêmico, causado pela obstrução de um vaso, quanto AVC hemorrágico, provocado pelo rompimento de um vaso sanguíneo. O envenenamento também pode provocar tromboses ou hemorragias em outros órgãos.
Os pesquisadores destacam ainda que esses AVCs podem ser mais extensos do que os casos tradicionalmente associados a fatores como hipertensão e aterosclerose, podendo atingir diferentes regiões do cérebro simultaneamente.
Atendimento rápido não elimina o risco
Um dos achados que chamaram a atenção dos pesquisadores é que parte dos pacientes recebeu soro antiofídico menos de seis horas após a picada e, ainda assim, desenvolveu AVC. O atendimento precoce continua sendo fundamental, mas não garante que a complicação neurológica será evitada.
No Brasil, foram registrados 28.626 acidentes envolvendo serpentes em 2025, com 149 mortes, segundo dados do Ministério da Saúde citados na reportagem. A dificuldade de acesso a serviços de saúde, principalmente em áreas rurais e regiões remotas, pode atrasar o diagnóstico e o tratamento de complicações graves.
Quais são os sinais de alerta
Os sintomas de um AVC após uma picada de cobra podem incluir fraqueza súbita, dificuldade para falar, perda de visão e alteração do nível de consciência. Náuseas, vômitos e outros déficits neurológicos também devem ser considerados sinais de alerta.
A orientação dos especialistas é procurar atendimento médico imediatamente após qualquer picada de serpente. O soro antiofídico é o principal tratamento e ajuda a reduzir os efeitos sistêmicos do envenenamento.
Os especialistas também alertam para que não sejam feitos torniquetes no membro atingido, pois a prática pode agravar o quadro e até levar à perda do membro.

