Deslizamentos e enchentes ameaçam 1,5 milhão de pessoas em Minas
Uma a cada três cidades mineiras é considerada suscetível a riscos de enxurradas, inundações e deslizamentos de terra. Nesses locais de perigo vivem cerca 1,5 milhão de pessoas. O estudo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), se soma a outros levantamentos que escancaram as ameaças constantes à população.
Conforme o Hoje em Dia mostrou, Minas lidera o ranking de casas em áreas de risco para deslizamentos no Brasil. Segundo o Map Biomas, são quase 14,5 mil hectares. Já o novo estudo do Cemaden revela que 305 das 853 cidades são consideradas áreas prioritárias para o risco de tragédias naturais. Os dados são baseados no Censo 2022.
A gravidade da situação foi estampada nas catástrofes na Zona da Mata no fim de fevereiro. Temporais deixaram mortes e destruição, principalmente em Juiz de Fora, onde 65 pessoas perderam a vida. O município é a terceira cidade brasileira com a maior área urbanizada em declives acentuados (1.256 hectares), ficando atrás apenas das capitais Rio de Janeiro e São Paulo.
Professora do Instituto de Geociências da UFMG, Cristiane Vieira afirma que as tragédias não são “fruto do acaso”, mas de uma combinação de fatores geográficos e geológicos. A educadora indica que as áreas de risco se concentram principalmente na Zona da Mata, no Campo das Vertentes, na região Central e no Vale do Rio Doce.
“Temos um relevo muito movimentado. Quanto mais você tem relevo inclinado, a chuva tende a escoar para a parte mais baixa da paisagem. O segundo aspecto é que Minas também tem uma geologia em que os solos são facilmente susceptíveis a escorregamentos. O terceiro ponto é a incidência de chuvas extremas que têm atingido o Estado cada vez mais”, destaca.
Ocupação desordenada é um dos desafios
A especialista indica que a ocupação desordenada e a falta de investimento público são os “grandes vilões”. Cristiane Vieira destaca que o problema não é apenas construir em morros, mas a desigualdade no acesso à engenharia.
“A infraestrutura urbana não chega igual para todo mundo. A desigualdade social também é uma desigualdade em termos do acesso a essa estrutura. Um prédio bem construído em uma área de encosta, com investimento em infraestrutura, tem menos chances de desabar do que uma casa construída no morro com poucos recursos”, compara a docente.
A professora destaca também que a frequência dos fenômenos mudou o patamar de alerta dos municípios mineiros. O que antes era considerado um evento raro atualmente faz parte do calendário anual das defesas civis.
Qual a solução?
Apesar do cenário complexo, a especialista afirma que existem caminhos técnicos para reduzir a vulnerabilidade das cidades mineiras. A solução, segundo ela, exige um esforço de médio e longo prazo focado em intervenções estruturais e na preparação da comunidade.
“É possível diminuir esses riscos com obras de engenharia e melhoria do saneamento básico. Existem projetos voltados especificamente para reduzir o risco em periferias por meio de técnicas que estabilizam as encostas”, explica.
A professora ressalta que, além das obras, o fator humano é decisivo. “As pessoas que vivem nessas áreas precisam não apenas de um sistema de alerta, mas de uma estrutura para saber exatamente o que fazer quando o aviso é dado. Muitas vezes a população recebe o alerta, mas não conhece a rota de fuga ou o protocolo de segurança”.
Para a docente, o mapeamento rigoroso e a proibição de novos loteamentos em áreas de alta inclinação são os primeiros passos.
O Hoje em Dia entrou em contato com o Governo de Minas e com a Defesa Civil Estadual para ter mais detalhes sobre políticas públicas que visam a reduzir a vulnerabilidade das cidades mineiras, mas não houve retorno até o fechamento desta edição.

