Morre ator que viveu Papai Noel do Natal Luz de Gramado durante 20 anos
Intérprete do Papai Noel no Natal Luz de Gramado por duas décadas, o ator Júlio Rodrigues faleceu na última segunda-feira (18), aos 71 anos. Ele estava internado na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, onde realizava tratamento contra um câncer.
Júlio fazia parte do elenco fixo do maior evento natalino do Brasil desde 2005. Foram 20 edições consecutivas no papel do Bom Velhinho, sendo a última delas na 40ª edição, encerrada em 18 de janeiro deste ano.
Júlio Cezar da Silva Rodrigues nasceu em 17 de dezembro de 1954, uma semana antes do Natal, na cidade de Jaguarão, na fronteira com o Uruguai.
Ainda jovem, mudou-se para Porto Alegre, onde se casou, teve dois filhos e viveu a maior parte da vida. A partir de 2005, passou a dividir a rotina entre a capital e Gramado, para onde se mudava em outubro para trabalhar e só retornava em janeiro.
Durante três meses por ano, a cadeira de escritório de Júlio dava lugar a uma poltrona vermelha ao lado de um pinheiro e de uma pilha de brinquedos. Sua rotina de trabalho incluía uma extensa agenda de encontros – e selfies – com os milhares de turistas que visitavam mensalmente a Casa do Papai Noel, um sobrado de madeira localizado na Vila do Natal, no centro da cidade.
Júlio também participava do tradicional desfile de rua do Natal Luz, surgindo no último ato do espetáculo em um trenó, de onde acenava para o público sob neve artificial e ao som de música.
Os cuidados estéticos para manter a barba fiel à caracterização começavam meses antes de se mudar para Gramado, com o corte das pontas e a manutenção do volume.
“A dedicação era realmente incrível. Ele, com a barba grisalha, era o senhor Júlio Rodrigues. Mas quando o Natal se aproximava e ele começava a cuidar da barba, ah, meu amigo… Ele realmente se tornava o Papai Noel”, conta Lauro Neto, que trabalhava na montagem dos cenários.
Ele relata que Júlio era generoso como seu personagem, presenteava com comida os funcionários da manutenção da Vila do Natal e levava a sério o papel de Papai Noel.
“Uma vez, durante uma conversa de churrasco, ele disse que, quando a gente se propõe a interpretar um personagem ou realizar um trabalho, você precisa ser aquele trabalho, ou o personagem deve transformar a ilusão em algo verdadeiramente real”, recorda.
O assessor de eventos da Gramadotur, Thiago Schmitt, afirma que Júlio falava sobre a importância do Papai Noel na vida das crianças. “Mesmo durante os ensaios, sem a fantasia, ele se portava com a educação do Noel.”
Os dois se conheceram quando Thiago fazia parte da equipe de motoristas que acompanhava o trenó e levava o ator de volta à praça central ao fim do desfile. No curto trajeto, via o Papai Noel receber do público o mesmo tratamento destinado às principais estrelas que desfilavam no tapete vermelho do Festival de Cinema de Gramado.
“Era sempre uma multidão. Os seguranças abriam caminho para o carro poder retornar com o Papai Noel, e ele fazia questão de abaixar os vidros do veículo onde estava como carona para que fôssemos bem devagar, pois queria atender a todos. Era fantástico ver toda aquela energia”, conta Thiago.
A ideia de investir em uma carreira como Papai Noel surgiu de uma brincadeira entre amigos e se transformou em um hobby semiprofissional, que Júlio conciliava com sua rotina como motorista de ônibus intermunicipal.
Com o tempo, passou a receber convites para participar de eventos de fim de ano e comerciais de televisão, até ser “descoberto” em 2004, durante uma viagem a Gramado para participar de uma convenção de Papais Noéis.
Sua caracterização impressionou o empresário Luciano Peccin, então secretário de Cultura de Gramado, que o convidou para um teste de trabalho. No ano seguinte, estreou em seu primeiro Natal Luz como Papai Noel efetivado.
O cenotécnico Marlon Motta conheceu Júlio naquele ano nos bastidores do desfile, e o convívio restrito ao ambiente de trabalho evoluiu para uma amizade e uma relação de família. “Ele acompanhou o nascimento da minha filha e, até hoje, aos oito anos, ela o chamava de avô”, conta Marlon.
Júlio chegou a morar na casa de Marlon por cinco temporadas do Natal Luz enquanto ambos trabalhavam no evento. “Sempre foi uma pessoa muito brincalhona, que tornava o ambiente leve”, diz.
A Prefeitura de Gramado decretou três dias de luto oficial. “Mais do que vestir o personagem, ele representava o verdadeiro espírito natalino, sempre com atenção, carinho e comprometimento em cada encontro”, afirma o comunicado do município.

